Por Vinicius Gomes e Hugo Costa
Caros leitores, hoje iremos falar sobre a experiência vivencial de participar das práticas com as bicicletas Tandem. Para iniciarmos o assunto, primeiramente, é interessante relembrarmos o que é a Tandem.
A bicicleta Tandem surge no contexto do paraciclismo para possibilitar a participação efetiva das pessoas com deficiência visual nas competições. Diferente das bikes comuns, ela possui dois assentos e uma corrente que liga o movimento central dianteiro ao traseiro, de modo que ambos os participantes, piloto e co-piloto, devem pedalar simultânea e sincronicamente (EPIPHANIO & BARREIRA, 2025).
No Projeto de extensão Experiência Tandem como Prática de Movimento no Cuidado à Usuários de Serviço de Saúde Mental e Pessoas com Deficiência Visual, a bicicleta Tandem é um dos instrumentos de cuidado que colorem nossa prática física, de movimento, sendo acessível a todos os seus participantes, sejam eles pessoas com deficiência visual ou não. Assim, na prática, um aspecto que se destaca ao utilizá-la é de que ela exige sintonia entre os dois usuários, piloto e com-piloto (pessoas acompanhadas pelo projeto), que juntos, mobilizam seus corpos para produzir movimento e cuidado.
Nesse sentido, é interessante pontuar como o movimento, subjetividade e cuidado estão conectados e como eles ressoam na prática com a tandem, exemplificado por meio de nossas vivências.
Vivência de Vinicius
Inicialmente, ao subir em uma tandem pela primeira vez, me deparo com uma estranheza que se estende para a prática em dupla: dar largada é difícil, tanto por conta da dificuldade em se equilibrar, como de sincronizar a pedalada. Como piloto, é preciso que haja atenção aos mínimos detalhes. Surge, então, a necessidade de controle: é necessário que tudo ocorra conforme o planejado para que a experiência seja satisfatória para ambas as partes. Isto envolve desde manter o equilíbrio constante até estar atento a qualquer empecilho que atrapalhe a prática.
Todavia, uma vez lançado ao percurso, pedalada após pedalada, e a partir do encontro de duas subjetividades que passam a se conhecer de forma corpórea e verbal, os entraves iniciais se esvaem e a necessidade de controle diminui, tornando fluido o movimento em conjunto. Emerge, então, a sensação de liberdade, presentificação e conexão.
Estes breves parágrafos iniciais, exemplificam como a experiência Tandem, para mim, não se resume apenas a andar de bicicleta, mas é também sobre ser deslocado, física e subjetivamente. Digo isto pois fui movido a perceber que, embora eu tenha meu corpo, ele também faz parte de quem eu sou. Nesse sentido, os momentos de apreensão, as incertezas, inseguranças até os momentos de empolgação e alegria sentidos por mim eram reverberados corporalmente, revelados pela forma como eu pedalava. Dessa maneira, nos momentos de empolgação, eu colocava mais força no pedal; de forma paralela, quando sentia apreensão, os movimentos eram mais lentos e cuidadosos. Em síntese, na tandem, se tornou evidente para mim que o corpo é um fenômeno complexo, que não se resume a processos biomecânicos e fisiológicos, mas que é dotado de uma coloração subjetiva.
Semelhantemente, se solidificou em mim a reflexão de que estar em vida é participar de um mundo cheio de movimento que acontece em com-junto. Na prática, isto fica claro nas situações em que se precisa que o outro emerja. Por exemplo, no trajeto em que há subidas, nesses momentos, é necessário que o outro exerça mais força para que a experiência de ambos seja confortável; ou, se um sujeito percebe que seu parceiro está mais cansado, é interessante que haja, igualmente, maior apoio no pedal ou até mesmo perguntar se não seria interessante descansar para depois retomar a prática. Aqui, a comunicação é fundamental para o bom andamento da prática, sendo expressada pelo corpo, como pela palavra dita, esta que pode transcorrer a respeito de qualquer coisa, desde a prática física até a primeira coisa que vier à mente.
Enfim, essas situações nos convidam a se colocar presente e perceber que, naquele momento, o mundo não é vivido sozinho, mas é uma experiência com-partilhada. Compreendo, então, que participar do projeto é mais do que pedalar uma bicicleta, é, também, conhecer mais sobre si e ao outro, de maneira que, juntos, possa se tecer um movimento de cuidado.
Vivência Hugo
Há quem imagine que uma bicicleta tandem seja apenas uma bicicleta para duas pessoas. Eu também pensava assim antes de entrar no projeto. Que eu apenas aprenderia a conduzir uma bicicleta diferente dentro de um modelo de acompanhamento terapêutico. Bastaram algumas práticas para perceber que ela era muito mais do que isso.
Ser piloto na tandem é uma experiência difícil de explicar para quem nunca pedalou. À primeira vista, parece que a nossa função é conduzir todos os movimentos, todas as intensidades da bicicleta. Mas, na prática, logo fica evidente que ninguém conduz sozinho. A bicicleta só anda porque duas pessoas estão juntas no movimento; e o cuidado que é construído na experiência tandem, também funciona assim; no movimento, com corpo e presença.
Durante a graduação, aprendi a imaginar o cuidado psicológico acontecendo, principalmente, dentro de consultórios e instituições. O projeto aparece para ampliar completamente essa ideia. De repente, o cuidado acontecia na rua, na orla, no campus, no parque, durante uma conversa atravessada pelo vento ou num silêncio compartilhado enquanto pedalávamos. Aos poucos fui entendendo que o acompanhamento terapêutico também pode ser isso: uma prática que acontece na vida, e não fora dela.
Acredito que essa tenha sido uma das maiores descobertas para mim. Hoje, quando se fala em acompanhamento terapêutico, muitas pessoas imediatamente o associam ao contexto da ABA. Esse era o meu pensamento antes de conhecer o projeto. Participar dele me colocou em contato com outra história dessa prática. Foi como descobrir uma profissão dentro da própria profissão que eu estava aprendendo.
Lembro da minha primeira prática. Estava preocupado em fazer tudo certo: equilibrar a bicicleta, acertar a largada, não errar o caminho. Mas, com o tempo, fui percebendo que essas preocupações iam perdendo espaço. O que realmente importava era outra coisa. Era perceber o outro, sintonizar a conversa (ou a ausência dela), era aprender que nem toda comunicação passa, necessariamente, pela palavra. Mas pode passar pelo corpo, pelo movimento ou pelo silêncio.
Talvez por isso eu não consiga eleger um único momento marcante. O que me transformou foi o processo inteiro. As pedaladas, claro, mas também as supervisões, as formações. O projeto não foi apenas um lugar onde vivi experiências; foi um lugar onde aprendi a pensar sobre elas.
Há uma imagem que sempre me acompanha quando tento explicar o vínculo que se cria entre piloto e com-piloto. Nos primeiros encontros, quase tudo exige atenção. É preciso compreender o ritmo do outro, entender como ele pedala, quando acelera, quando hesita. Com o passar do tempo, essa sintonia deixa de ser apenas física. Ela vira confiança. De repente, o movimento acontece sem precisar ser combinado o tempo inteiro. Existe uma espécie de entendimento construído na convivência, na relação.
Foi isso que a tandem me ensinou. Que cuidar talvez tenha menos relação com conduzir alguém e muito mais com estar disposto a dividir um percurso. Não para decidir o caminho pelo outro, mas para construir esse caminho junto. E, curiosamente, enquanto isso acontece, quem também muda sou eu.
Referências
EPIPHANIO, E. H..; BARREIRA, C.R. Experiência Tandem: Um Estudo Fenomenológico Sobre Paraciclismo. Revista da Associação Brasileira de Atividade Motora Adaptada , Marília, SP, v. 26, n. 1, p. 103–124, 2025. DOI: 10.36311/2674-8681.2025.v26n1.p103-124. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/sobama/article/view/17277.. Acesso em: 6 jul. 2026.



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